quarta-feira, junho 28, 2006

pareço uma bolha

de ar ou de água,
indiferente

de um qualquer composto que flutue,
formando uma pequena bola
insignificante

tonta e errante, inchada e
empenhada em reflectir tudo o que se passa
menos o que se passa cá dentro

porque sou uma bol[h]a
vazia.

quinta-feira, maio 11, 2006

fatias saídas de um esconso emocional

I

acredito em ti porque não acredito em observações tangenciais nem em pessoas lineares. espero-te na sequência da dissolução dessas tantas cortinas invisíveis, quebra-luzes infernais que não me deixam ter-te nem experimentar-te da maneira devida, com a reverência que segue as grandes sensações, os impulsos desmedidos. somos coisas efémeras e frágeis e sozinhas e redomamo-nos uns aos outros sem sequer reparar nas electricidades, nas cadências, nas centelhas que vamos deixando para trás. não me redomes - acende-me, determinada e prodigiosamente como só faz quem sabe.

II

há mil imagens que me domam sem coerência nem questão. e se fechar os olhos e me deixar ir, por um instante só, sorrio e sinto um arrepio e não consigo voltar mais.

III

eu tinha um grande desejo que era tão íncrivel que eu não o partilhava com ninguém porque é assim que nos dizem para fazer quando nos manifestamos fora do normal reprimia essa vontade e isso não era nada bom porque quanto mais tentava ignorá-la mais ela me aparecia em sonhos e em encontros e em postais gratuitos e já era tão complexa e já me conhecia tão bem que me encharcava em suores frios e me afogava em insónias diabólicas que são as coisas que acontecem quando nos deixamos engaiolar desta maneira e era um suplício tal que eu já não via nada nem ouvia ninguém só a vontade-sereia a soprar-me ao ouvido e a provocar-me e a minar-me com uma languidez tal que eu a dada altura deixei de ter forças para me dominar e libertei-me da tirania e do jugo que me sufocava a essência

e fui feliz.

quarta-feira, abril 26, 2006

revoluciona-me

definam-me as emoções em pârametros, em análises psico-sociológicas, em testes de cruzinha e em relatórios finais que eu chamo-vos ursos porque não sabem que perdem tempo e dinheiro e a sanidade mental. falem-me sim de histórias incompletas, de encontros sem espaço nem tempo nem nada, de sorrisos e outras falinhas mansas que não se expliquem nem se redomem, de ansiedades potenciadas ao limite da consciência, de perguntas sem resposta e sem destino e sem parágrafo.

desenhem-se no tecto, deitados ao lado de quem vos faz mais falta.

sábado, abril 01, 2006

apanho-te do chão aos bocados

e colo-te a mim com os dedos
com as mãos todas

e sinto-te como se estivesses aqui.

quinta-feira, março 30, 2006

a crónica [das pessoas] sem graça

não se aguentam os sorrisinhos cretinos das pessoas auto-intituladas "felizes". para mim é tudo treta, nem mais nem menos. ninguém minimamente inteligente se pode considerar minimamente feliz. esses dissimulados são tristes como todos nós, só que enquanto nós gastamos o nosso tempo e o nosso (pouco) dinheiro em coisas que só interessam ao diabo (livros, conversas, almoços, pares de sapatos que nunca vão sair da caixa...) "eles" vão gastando tudo e mais alguma coisa numa complicada operação de estratégia para disfarçar a tristeza de vida que não compreendem. e gera-se toda uma indústria de felicidade engarrafada. com prazo de validade, ah pois é. nada que a corporación dermoestética não possa vir a resolver.

o que eles não resolvem de todo é a falta de graça das pessoas. e eu gosto dessa graça ácida que ou se tem, ou não. e se não se tem, mais vale investir nuns bons livros do que num bom rabo - porque sem graça nunca passa disso. gosto de pessoas-limão, sarcásticas e divertidas, que vejam a graça das coisas que não têm graça nenhuma. como os funerais, o benfica ou a tvi. pessoas pouco sérias mas que saibam concentrar-se no universalmente interessante e deixar de parte as cervejas tango e outros embarrilanços afins. pessoas engraçadas, na verdadeira e total acepção do adjectivo. todas as outras podem fazer um favor ao mundo e comprar um bilhete de ida sem volta para o rock in rio lisboa, que a gerência agradece e faz a sua vénia.

[claro que isto é tudo mentira, eu também gosto das tais pessoas felizes e sem graça. sem elas, iam restar-me muito poucas coisas para gozar quando me dá a neura.]

terça-feira, março 28, 2006

às tantas

não param de ecoar na minha cabeça assobios, ou antes, sopros - murmúrios levezinhos de conversas que nunca acabaram ou que foram ficando a meio em alturas de letargia partilhada. no meio dos entretantos há sempre uma imensidão de coisas que não se dizem. que se comem, invariavelmente por falta de uma qualquer coisa, e que vão desaparecendo conforme as convalescenças e a falta de paciência para os desatinos melodramáticos. e há sempre um lume que vai ficando aceso, uma chama-piloto que ora se limita à sua função avisadora ora explode em faíscas que não se aguentam de tão incandescentes.

há sempre um olhar, um toque, uma palavra, um farol.

os meus erros aproximam-me das fatalidades do inevitável e acabam sempre por me afastar do que é, agora. há sempre uma pacienciazinha, uma esperancita pirosa, uma vontade mundana de experimentar ser diferente por uma vez, caindo no logro do estereótipo confortável em que a conduta standardizada e cheia de certezas facilita a vida a toda a gente. dá[-se] sempre [um] jeito. não dá coisa nenhuma, não adianta, congela-se aos bocados porque soa tudo a falso, porque se não há feitio também não há feito. e há dias em que a única coisa que há é uma vontade louca.

só uma nota de rodapé

(antes de mais nada)

quem me dera saber tanto que pudesse perceber o que quero. se calhar quero tanto, quero tudo, e tanto que não há tudo que aguente. se calhar não quero nada.

segunda-feira, março 20, 2006

as minhas nuvens

tenho dez mil nuvens cinzentas na cabeça. não há vento que puxe por elas. não chovem. enrolam-se umas nas outras. dez mil bolas de algodão sujas e electrificadas. flutuam. aliás, pairam. às vezes, muito às vezes, há um raiozinho de sol mais corajoso. enche-se de força e fura a água pesada das minhas nuvens. depois dissipa-se. mas as nuvens continuam. a pairar. é só o que sabem fazer.

espera

vejo um bocadinho de céu azul, pequeno, ao longe. está é do outro lado das minhas nuvens.

sexta-feira, março 10, 2006

melancholic workaholic

não tenho paciência para esta melancolia que me ataca nos raríssimos intervalos em que tenho tempo para pensar.

domingo, março 05, 2006

"un jour couleur d'orange..."

I

perco-me em memórias de coisas que nunca foram ou talvez tenham sido eu é que já perdi tanto tempo com elas que já nem sei de cor de que cor eram as nuvens quando decidi voltar as costas ou com que tintas pintei a boca quando te disse que era tarde demais para tanta inflexibilidade. ainda estou para saber como é que vai ser nesse dia cinzento em que o mar já cansado de tanta incongruência te sacuda e te baralhe e te faça abraçar a única razão que conhecemos e que é o estandarte de tanta aflição e de tanto morder de língua quando as palavras que sobem por nós acima são ácidas demais para as soltarmos preferindo nós para variar deixá-las a corroer-nos por dentro. depois quando esse dia chegar veremos se ainda cá estamos como sempre estivemos ou se já fomos consumidos pelo nosso próprio desamor.

II

apetece-me olhar para ti e deixar que me desafines como a um piano demasiado limpo, demasiado polido, demasiado no tom. é o cansaço que me enverniza e que me conduz no compasso acertado dos dias, oscilantes na sua desordem, como se nada conseguisse infiltrar-se nas minhas cordas bem esticadas. mas infiltra-se e abotoa-se esta infinita necessidade daquele algo mais que me desconstrua de uma vez, me esvazie os pulmões de todo o ar e me escureça a razão; que me ponha louca. outra vez. de uma vez.

sábado, fevereiro 25, 2006

factos transitivos

as coisas mudam
as pessoas estão a mudar - há coisas que nunca mudam
mas nós não temos outra sina.

e nestas fases de transição entre uma coisa e outra coisa, o que mais importa são as pessoas - as que não transitam, as que transitam mas é como se não transitassem e as que aparecem de repente e se vão revelando no meio do trânsito. a distância não é nada:

[são migalhas] a proximidade não é garantia de coisa nenhuma. as coisas fazem estragos enormes nas pessoas.

domingo, janeiro 29, 2006

o frio (um quase re-post)

está aquele frio que eu detesto. que não se aguenta, que não me deixa sair à rua, que despe as árvores e que me faz antecipar (mais) uma manhã gelada feita de camadas de roupa e de cigarros fumados no intervalo com as mãos a tremer. aquele frio que me faz sentir bem apesar de tudo porque tenho casa e cobertores e aquecedores a gás, a óleo e a electricidade. aquele frio que faz nevar e que traz milhares de pessoas à rua, numa romaria de um íncrivel provincianismo que noutras alturas talvez me tivesse incomodado. mas não agora, agora acho piada e já não me entristeço tanto com as outras pessoas como comigo mesma.

e a vida às vezes é mesmo assim como o inverno, imprevísivel e limitadora e causadora de pequenas raivas inexplicáveis. e eu perco a paciência e só me apetece gritar às altas instâncias divinas para que me devolvam pelo menos uns 25ºC, aquele sol que as minhas janelas adoram e a minha boa-disposição. tenho de esperar com as minhas nuvens, cinzentas como todas as outras, bafejadas ocasionalmente por um sol tímido que me relembra esse verão glorioso em que tudo é luz.

há uma qualquer citação que diz que a vida pode ser uma íncrivel aventura - ou nada, e que na natureza não existe segurança nem nós humanos a havemos de experimentar como um todo.

contemos com isso - e com a antecipação de melhores verões!

segunda-feira, janeiro 23, 2006

parenting for dummies

o problema não são as fraldas, as fortunas que se gastam com a educação, as noites mal-dormidas

todos os clichés da paternidade.

o verdadeiro problema é o mundo, e a maneira como ele se redimensiona tenebrosamente nas nossas cabecinhas de reprodutores, exigindo um aperfeiçoamento constante de todas as nossas técnicas de resistência à paranóia que teima em fazer parte dos dia-a-dias

de todos nós.

domingo, janeiro 08, 2006

mau humor

vai faltando, devagarinho e com aquela dormência característica dos hábitos ja impregnados nas vivências. vai fugindo aos poucos, assustada por corriqueiros bric-à-bracs de gente e de feitios, desmoralizada como é a natureza humana actual, desprovida de longevidade e assassina de ímpetos. não quebres a corrente, não te insurjas, mascara-te apenas de hipócrita para que pareças diferente - mantém-te sempre igual, inabalável. destrói-me a pouca paciência que me resta com fábulas decoradas dos cinismos actuais, ofende-me com a inércia e a falta de carácter que são a nossa doença favorita. limita-me com falsos propósitos de evolução e de grandeza e mina-me o subconsciente de paranóias que são manifestações da subserviência à tua condição eterna e destrutiva.

é falta de paciência, é o que é.

quinta-feira, dezembro 15, 2005

da liberdade


quero outros saltos e outros vôos e assistir ao despertar de mais luas como a que tenho gravada na retina. tenho saudades de quem nunca tive e continuo à procura do que não vejo. e é no limite das minhas lembranças que me escondo, à espera desse descolar que me liberte.

quinta-feira, dezembro 01, 2005

reflexo

vejo-te num olhar desconhecido e é absurdo. mas vejo-te e sinto-te como sentia,
e sinto num olhar, num acorde,
num desenho. quero ver-te

noutro olhar.

sábado, novembro 12, 2005

pergunto-me:

se sabem mesmo do que falam, se têm a certeza de que vão viver assim ad eternum, se não pensam nem por um microsegundo na necessidade que têm de uma mudança - de uma evolução. há nos discursos cheios de certezas uma insegurança mal mascarada que me deixa sempre desconfiada das verdadeiras intenções do interlocutor: uma ideia tem todo o direito a ser defendida com a maior das convicções, mas deixe-se sempre um espaço aberto, uma margem de manobra que convide a contestações. não se tiranizem as ideias. não se ridicularizem as pobres, presas em palavras vãs e repetitivas, nas bocas de quem nunca se questiona.

sábado, novembro 05, 2005

a esta hora...


...desenterro ruínas de castelos de areia, perdidos há tempo demais, soterrados por montanhas de instantâneos que aparecem e desaparecem com a efemeridade das borboletas e que acabam por não ter importância nenhuma, acumulando-se como colinas de pó num chão por varrer. instantâneos cinzentos de cinzeiros por despejar, que acinzentam tudo o que permanece, todos os coloridos de passados vários, recordações que se vivem, não como fotografias carcomidas de que já ninguém se lembra, mas como propulsoras de futuros diferentes destes que se programam sem saber como é que o sol nasce amanhã. varro os cinzentos com a euforia de quem se insurge, de quem insiste e vê resultados, vê presentes, vê futuros nos passados distantes, nos reflexos de sensações que não são mais do que ensinamentos - e absorvo estas lições, reaprendo-as e procuro sem descansar uma solução para os dias em que deslizo nestas inércias.

sexta-feira, novembro 04, 2005

tempo

penso se tenho tempo para ter tudo o que quero, para ser tudo o que sonho. se tenho tempo sequer para querer, quanto mais para sonhar. quero ter tempo. quero tanto ter tempo, tanto tempo, não peço mais nada. não quero mais nada. o tempo é o meu tudo derradeiro.

quero tempo para ver, para tocar, para descobrir. para acompanhar e para ser o que já sou mas todos os dias mais e melhor e maior e sempre assim, até ao fim. quero tempo, tanto tempo, todo o tempo. quero um tempo infinito, um tempo congelado que demora o tempo que eu quiser.

não sei quanto tempo tenho. nem sabes tu nem nenhum de nós. não sei se ainda vou ter tempo amanhã ou depois ou daqui a dois meses ou cinquenta anos. e se há em mim uma vontade sombria e humana de saber, o que eu mais quero é congelar este tempo por tempo indefinido.

domingo, outubro 30, 2005

o céu está cor-de-rosa

e eu ainda sinto a tua falta, em fatias de pensamento de sabores diversos e nos meus olhos que se cansam de tanto [te] procurar por aí. levo para todo o lado o peso do desequilíbrio, não sei despegar-me do que sinto. não sei fingir: só disfarçar, camuflar, maquilhar cuidadosamente essas incertezas tão tangenciais, tão minhas. tão instaladas, já. e percebo tantas coisas que levaram tanto tempo a perceber, tantos mistérios intricados que sempre assumi como mais-valias de pessoas pequenas e que afinal são tão humanos como tu e eu, tão evidentes como o tempo e as mudanças e tão poderosos como o cor-de-rosa do céu que me fecha os olhos cansados em contemplação do que não se pode ver.