terça-feira, março 28, 2006

só uma nota de rodapé

(antes de mais nada)

quem me dera saber tanto que pudesse perceber o que quero. se calhar quero tanto, quero tudo, e tanto que não há tudo que aguente. se calhar não quero nada.

segunda-feira, março 20, 2006

as minhas nuvens

tenho dez mil nuvens cinzentas na cabeça. não há vento que puxe por elas. não chovem. enrolam-se umas nas outras. dez mil bolas de algodão sujas e electrificadas. flutuam. aliás, pairam. às vezes, muito às vezes, há um raiozinho de sol mais corajoso. enche-se de força e fura a água pesada das minhas nuvens. depois dissipa-se. mas as nuvens continuam. a pairar. é só o que sabem fazer.

espera

vejo um bocadinho de céu azul, pequeno, ao longe. está é do outro lado das minhas nuvens.

sexta-feira, março 10, 2006

melancholic workaholic

não tenho paciência para esta melancolia que me ataca nos raríssimos intervalos em que tenho tempo para pensar.

domingo, março 05, 2006

"un jour couleur d'orange..."

I

perco-me em memórias de coisas que nunca foram ou talvez tenham sido eu é que já perdi tanto tempo com elas que já nem sei de cor de que cor eram as nuvens quando decidi voltar as costas ou com que tintas pintei a boca quando te disse que era tarde demais para tanta inflexibilidade. ainda estou para saber como é que vai ser nesse dia cinzento em que o mar já cansado de tanta incongruência te sacuda e te baralhe e te faça abraçar a única razão que conhecemos e que é o estandarte de tanta aflição e de tanto morder de língua quando as palavras que sobem por nós acima são ácidas demais para as soltarmos preferindo nós para variar deixá-las a corroer-nos por dentro. depois quando esse dia chegar veremos se ainda cá estamos como sempre estivemos ou se já fomos consumidos pelo nosso próprio desamor.

II

apetece-me olhar para ti e deixar que me desafines como a um piano demasiado limpo, demasiado polido, demasiado no tom. é o cansaço que me enverniza e que me conduz no compasso acertado dos dias, oscilantes na sua desordem, como se nada conseguisse infiltrar-se nas minhas cordas bem esticadas. mas infiltra-se e abotoa-se esta infinita necessidade daquele algo mais que me desconstrua de uma vez, me esvazie os pulmões de todo o ar e me escureça a razão; que me ponha louca. outra vez. de uma vez.

sábado, fevereiro 25, 2006

factos transitivos

as coisas mudam
as pessoas estão a mudar - há coisas que nunca mudam
mas nós não temos outra sina.

e nestas fases de transição entre uma coisa e outra coisa, o que mais importa são as pessoas - as que não transitam, as que transitam mas é como se não transitassem e as que aparecem de repente e se vão revelando no meio do trânsito. a distância não é nada:

[são migalhas] a proximidade não é garantia de coisa nenhuma. as coisas fazem estragos enormes nas pessoas.

domingo, janeiro 29, 2006

o frio (um quase re-post)

está aquele frio que eu detesto. que não se aguenta, que não me deixa sair à rua, que despe as árvores e que me faz antecipar (mais) uma manhã gelada feita de camadas de roupa e de cigarros fumados no intervalo com as mãos a tremer. aquele frio que me faz sentir bem apesar de tudo porque tenho casa e cobertores e aquecedores a gás, a óleo e a electricidade. aquele frio que faz nevar e que traz milhares de pessoas à rua, numa romaria de um íncrivel provincianismo que noutras alturas talvez me tivesse incomodado. mas não agora, agora acho piada e já não me entristeço tanto com as outras pessoas como comigo mesma.

e a vida às vezes é mesmo assim como o inverno, imprevísivel e limitadora e causadora de pequenas raivas inexplicáveis. e eu perco a paciência e só me apetece gritar às altas instâncias divinas para que me devolvam pelo menos uns 25ºC, aquele sol que as minhas janelas adoram e a minha boa-disposição. tenho de esperar com as minhas nuvens, cinzentas como todas as outras, bafejadas ocasionalmente por um sol tímido que me relembra esse verão glorioso em que tudo é luz.

há uma qualquer citação que diz que a vida pode ser uma íncrivel aventura - ou nada, e que na natureza não existe segurança nem nós humanos a havemos de experimentar como um todo.

contemos com isso - e com a antecipação de melhores verões!

segunda-feira, janeiro 23, 2006

parenting for dummies

o problema não são as fraldas, as fortunas que se gastam com a educação, as noites mal-dormidas

todos os clichés da paternidade.

o verdadeiro problema é o mundo, e a maneira como ele se redimensiona tenebrosamente nas nossas cabecinhas de reprodutores, exigindo um aperfeiçoamento constante de todas as nossas técnicas de resistência à paranóia que teima em fazer parte dos dia-a-dias

de todos nós.

domingo, janeiro 08, 2006

mau humor

vai faltando, devagarinho e com aquela dormência característica dos hábitos ja impregnados nas vivências. vai fugindo aos poucos, assustada por corriqueiros bric-à-bracs de gente e de feitios, desmoralizada como é a natureza humana actual, desprovida de longevidade e assassina de ímpetos. não quebres a corrente, não te insurjas, mascara-te apenas de hipócrita para que pareças diferente - mantém-te sempre igual, inabalável. destrói-me a pouca paciência que me resta com fábulas decoradas dos cinismos actuais, ofende-me com a inércia e a falta de carácter que são a nossa doença favorita. limita-me com falsos propósitos de evolução e de grandeza e mina-me o subconsciente de paranóias que são manifestações da subserviência à tua condição eterna e destrutiva.

é falta de paciência, é o que é.

quinta-feira, dezembro 15, 2005

da liberdade


quero outros saltos e outros vôos e assistir ao despertar de mais luas como a que tenho gravada na retina. tenho saudades de quem nunca tive e continuo à procura do que não vejo. e é no limite das minhas lembranças que me escondo, à espera desse descolar que me liberte.

quinta-feira, dezembro 01, 2005

reflexo

vejo-te num olhar desconhecido e é absurdo. mas vejo-te e sinto-te como sentia,
e sinto num olhar, num acorde,
num desenho. quero ver-te

noutro olhar.

sábado, novembro 12, 2005

pergunto-me:

se sabem mesmo do que falam, se têm a certeza de que vão viver assim ad eternum, se não pensam nem por um microsegundo na necessidade que têm de uma mudança - de uma evolução. há nos discursos cheios de certezas uma insegurança mal mascarada que me deixa sempre desconfiada das verdadeiras intenções do interlocutor: uma ideia tem todo o direito a ser defendida com a maior das convicções, mas deixe-se sempre um espaço aberto, uma margem de manobra que convide a contestações. não se tiranizem as ideias. não se ridicularizem as pobres, presas em palavras vãs e repetitivas, nas bocas de quem nunca se questiona.

sábado, novembro 05, 2005

a esta hora...


...desenterro ruínas de castelos de areia, perdidos há tempo demais, soterrados por montanhas de instantâneos que aparecem e desaparecem com a efemeridade das borboletas e que acabam por não ter importância nenhuma, acumulando-se como colinas de pó num chão por varrer. instantâneos cinzentos de cinzeiros por despejar, que acinzentam tudo o que permanece, todos os coloridos de passados vários, recordações que se vivem, não como fotografias carcomidas de que já ninguém se lembra, mas como propulsoras de futuros diferentes destes que se programam sem saber como é que o sol nasce amanhã. varro os cinzentos com a euforia de quem se insurge, de quem insiste e vê resultados, vê presentes, vê futuros nos passados distantes, nos reflexos de sensações que não são mais do que ensinamentos - e absorvo estas lições, reaprendo-as e procuro sem descansar uma solução para os dias em que deslizo nestas inércias.

sexta-feira, novembro 04, 2005

tempo

penso se tenho tempo para ter tudo o que quero, para ser tudo o que sonho. se tenho tempo sequer para querer, quanto mais para sonhar. quero ter tempo. quero tanto ter tempo, tanto tempo, não peço mais nada. não quero mais nada. o tempo é o meu tudo derradeiro.

quero tempo para ver, para tocar, para descobrir. para acompanhar e para ser o que já sou mas todos os dias mais e melhor e maior e sempre assim, até ao fim. quero tempo, tanto tempo, todo o tempo. quero um tempo infinito, um tempo congelado que demora o tempo que eu quiser.

não sei quanto tempo tenho. nem sabes tu nem nenhum de nós. não sei se ainda vou ter tempo amanhã ou depois ou daqui a dois meses ou cinquenta anos. e se há em mim uma vontade sombria e humana de saber, o que eu mais quero é congelar este tempo por tempo indefinido.

domingo, outubro 30, 2005

o céu está cor-de-rosa

e eu ainda sinto a tua falta, em fatias de pensamento de sabores diversos e nos meus olhos que se cansam de tanto [te] procurar por aí. levo para todo o lado o peso do desequilíbrio, não sei despegar-me do que sinto. não sei fingir: só disfarçar, camuflar, maquilhar cuidadosamente essas incertezas tão tangenciais, tão minhas. tão instaladas, já. e percebo tantas coisas que levaram tanto tempo a perceber, tantos mistérios intricados que sempre assumi como mais-valias de pessoas pequenas e que afinal são tão humanos como tu e eu, tão evidentes como o tempo e as mudanças e tão poderosos como o cor-de-rosa do céu que me fecha os olhos cansados em contemplação do que não se pode ver.

sexta-feira, outubro 28, 2005

é assim

estou especada em frente a um ecrã de um vazio tremendo. [é branco] vejo-o como via o quadro negro da minha escola, as contas de dividir que esperavam que eu as resolvesse - sem saberem, coitadas, que eu esperava que se resolvessem a elas próprias [a magia do giz]. isto era na quarta classe. já não estou na quarta classe, já não sou uma criança por definição, e tenho pena [tanta pena].

sábado, outubro 15, 2005

maria

só bastava um olhar prolongado para saber exactamente como era, como seria, como fora. naquele intervalo de tempo em que deixava o seu olhar discreto perder-se num qualquer detalhe. um sorriso, um gesto, um centímetro de pele. um catalisador de emoções, de experiências químicas e de outras magias sublimes e demasiado ignoradas pelas pessoas em geral, para seu próprio descontentamento. sentia-se feliz, genuína e selvaticamente feliz, sempre que encontrava um outro olhar como o seu. um olhar que lhe dissesse que tinha razão.

quarta-feira, setembro 21, 2005

caminhos

não sei porque escrevo se na verdade não quero escrever. quero tocar na tua boca e calar-te e não quero ouvir nada, nem um sussuro, nem um suspiro, nem o mais ligeiro respirar. quero ser aquela pessoa, quero brilhar de uma vez sem ter que recorrer aos espelhos, às máscaras. aos artíficios - às artes dos meus ofícios. quero ser uma, ter a alma pura e o coração sossegado. quero beber o silêncio em grandes goladas, encontrado finalmente o oásis da minha descrença. não quero escrever. não quero tocar a minha dor, martelada por um piano de cauda, bonito mas desafinado, num esconso das minhas aventuras. desdita. quero sentir o abraço, o cobertor, o espaço seguro e infinito. quero ser redonda, perfeita como uma esfera, sem nenhum ângulo que se prenda inadvertidamente noutro de igual simetria. ou talvez assimetria. quero abrir a boca e fabricar sons como quem compõe uma sinfonia, abrir os olhos e libertar cores e luminosidades perfeitas, soltar as minhas mãos no vazio e delas ver surgir formas e texturas renascentistas, leves e perfumadas de paixões avassaladoras.

quero abrir-me em compassos eternos, etéreos como farrapos de sedas rasgadas e imponentes nos seus reflexos, caminhos sinuosos e quentes e meus.

terça-feira, setembro 13, 2005

não existe mais nada

viu o entardecer quente e luminoso, como os entardeceres em que atava as recordações aos postes da cama, com algemas de raios de sol e olhares de ternura dominadora. este entardecer dizia-lhe segredos, tal como os outros entardeceres que a envolviam em palavras de canela e mel que a suspendiam no sonho, quase inconsciente. e eram segredos inocentes, segredos que não estavam ainda soltos, suspensos. eram segredos que a faziam sorrir um sorriso decrescente, como o sol que desaparecia lentamente no horizonte incendiado de vermelhos. o sorriso arrastava-se com os filamentos rosáceos do entardecer, esses entardeceres em que o mundo congela e não existe mais nada, mais ninguém. e ela deixava que o sorriso se arrastasse, aproveitava-o antes de ele se transformar numa noite fechada, de luzes de prata e reflexos fugidios. uma noite como as que lhe cantavam odes de solidões deixadas às avessas, como as noites em que ela se deixava atar pelas recordações, levada pelos raios da lua e pelos olhares de submissão atenta.

e antes que o último bocadinho de sol se desvanecesse numa fúria púrpura, ela fechou os olhos e pensou que naquele instante não existia mesmo mais nada, mais ninguém.

sexta-feira, setembro 09, 2005

o sono

adormeço com todas as certezas cromáticas que me ornamentam o sono. sou uma, inteira e decidida, rainha e senhora do tudo e do nada, subvertendo as composições de outra maneira idóneas, carregando os sóis de um brilho cegante que não deixa ver para além da fronteira do sustentável. do escuro. acordo suada, sufocada, afogada num medo tangível.

escorrego dos braços quentes do sossego e só dou por isso quando me desfaço no chão.

domingo, setembro 04, 2005

é sempre o mesmo

não gosto de ir. não gosto porque quando vou encho-me da luxúria enganadora dos que vão - e rebolo em dunas de felicidade por fugir à rotina famigerada e soturna (ou assim se pensa, ou assim se diz) - e quando volto

quando volto está tudo na mesma - menos eu.