quinta-feira, julho 28, 2005

da amizade sem constrangimentos de espaço-tempo

(re)vi um filme que me lembrou alguém que já viu esse filme comigo. alguém que viu muitos filmes comigo. alguém que me conheceu tão bem ou melhor do que eu me conheço. alguém que cantou comigo, que me fez (raras) confidências e que me ouviu e compreendeu como ninguém conseguiu, alguém que me perdoou os erros, que me aplaudiu as qualidades, que me apoiou tanto e tantas vezes. alguém que cresceu comigo, que me fez crescer e com quem aprendi coisas que ainda hoje não esqueço. alguém que me deixou com muitas e boas recordações. alguém a quem nunca agradeci.

"love, passion, obsession. the things without which life isn't worth living, you said."

quarta-feira, julho 27, 2005

summer blues


e depois vinha o verão e levava-me ao colo, anestesiando-me com cuidado, trinta-e-três graus, dilatando cada mílimetro da minha pele na sua languidez centígrada. vinha a luz do sol e embebia-me num calor doce e decidido, iluminando-me com certeza, espalhando com a grandeza das coisas superiores os cristais dourados da sua radiação como compete a um grande midas cósmico. vinha a água do mar e embrulhava-me sem eu dar por isso, infiltradas as suas gotas salgadas e redondas no meu corpo subitamente aquático, submerso e deslizante no vazio calmo e solene e neptuniano, perdida e achada nas ondas frias e endemoniadas.

vinha o verão e devorava-me.

sexta-feira, julho 22, 2005

nursery rhyme





















what do you do when you don't know what to do / do you try and do what's right, do you give it up for just one night / do you change out of the blue, do you ignore what you see as true, tell me what do you do / do you wait for clearer skies, for brighter days, for different lies / do you hope for cleansing rain or do you wash but leave the stain / it's hell trying to figure out just what you do, when you don't know what on earth to do.

segunda-feira, julho 04, 2005

...eis a questão:

invejar um tempo em que a imaturidade fazia uma única vocação parecer credível. é difícil fazer uma quantidade - demasiado grande? - de interesses confluir num único objectivo fulcral. daí a indecisão, o arrependimento da escolha, o medo do futuro como unidade temporal. as pressões da sociedade, cada vez mais num desenvolvimento negativo (como regressão), aliadas a sistemas educacionais e empresariais que definham nas suas estruturas, arcaicas e inibidoras per se, acabando por impedir a concretização ideal dos seus propósitos. injustiças em decisões que se tomam cedo demais, talvez, e que não ligam com a inflexibilidade das instituições académicas ou empresariais, presas estas a moldes que não ajudam, que não se adequam às exigências de uma vida real que se quer prática, motivadora: que leve a uma transmutação constante de interesses e capacidades, permitindo a quem não é dotado de uma única vontade forte (oposta a vontades várias em permanente mudança) a reinvenção e o poder de fazer uma gestão realista e contínua da progressão da sua vida profissional, em qualquer campo de actividade. abrir as escolhas, tornar a perspectiva do futuro numa constância justa em que se possa acreditar, por oposição a um filme em nuances de cinzento que já toda a gente começou a ver e do qual ninguém quer verdadeiramente saber o fim.

ontém falava-se de revoluções necessárias, da clausura das mentalidades, de uma história que se vai escrevendo cíclicamente, de um povo ameno com demasiadas pretensões e falta de [re]acção.

o maior entrave de todos ao desenvolvimento da acção é a intangibilidade das capacidades - confianças outrora tão inatas na sua dormência - , esmagadora quando associada ao prisma aterrorizador do longo prazo.

sábado, julho 02, 2005

silêncio e calma


ando à deriva como se o que me sustentasse não fosse mais do que nada. estou sozinha. absolutamente sozinha. não ouço um barulho que não venha de onde eu o possa controlar. não há condicionante que me agarre a coisa nenhuma nem responsabilidade que me ate a poste algum; como um cão vadio, sem casa, sem dono. não se passa rigorosamente nada. e o vazio transporta-me inevitavelmente para sítios onde já estive, pessoas com quem já me dei, a quem já me dei. visões de um passado não tão distante que me perturba mais do que eu poderia sequer remotamente supor. é um jogo de especulações misturadas com lembranças ainda vivas demais, sangue quente que não teve tempo de assentar, de secar, de desaparecer. parece impossível. começa agora. é preciso descontracção, uma cabeça descansada, usada mas fervilhante, traída mas atenta. reinvento-me pegando nas pontas deixadas por quem não soube prestar a devida atenção. perdoo-me por olhar ao espelho e me lembrar do que julgava já esquecido.

quinta-feira, junho 23, 2005

5.2.02 - 02h31m

dei por mim deitada na cama à procura de qualquer coisa para escrever, lembro-me de quando até guardanapos usava à falta de uma folha de papel. poemas, histórias corriqueiras, revoltas interiores conhecidas só das sebentas e dos cadernos, segredos e obscuridades e tudo o que pairasse no meu pensamento. hoje é-me difícil encontrar uma coisa que seja digna de uma transposição. não sei porquê. talvez seja a tal "falta de inspiração" da qual muitos se queixam e que se provoca desesperos em forma de folhas em branco e canetas imóveis. combatê-la então. de certeza que qualquer coisa há de acordar em mim a divagadora, fazer-me seguir por caminhos tortuosos de perguntas e respostas, problemas e soluções, íntrinsecas meditações que me tomem o espírito e me toldem o raciocínio, diluindo-os na mais pura das emoções. mas o quê? o raio de sol ou aquela sombria e inexplicavelmente sedutora claridade das manhãs chuvosas, em que o céu se baralha em tons de cinzento e branco e me faz sonhar com amanheceres longínquos e gelados? o sorriso infantil, inocente, perdido em purezas que creio raras? ou a voz, a voz especial de alguém importante que me dá calafrios e me remete para tremuras inconvenientes quando é suposto estar o mais natural possível? o livro que leio, a música que oiço, as palavras que me dizem e que balançam na minha cabeça em danças que me remoem os pensamentos? talvez nada disto me interesse verdadeiramente. talvez aquilo de que eu preciso seja apenas uma palavra. por muito pequena. ou um olhar. por muito indiferente. ou um toque. por muito inocente. ou talvez o mais importante seja mesmo o que fica por dizer, que fica por escrever e que não se transmite por nenhum sentido mas pela emoção partilhada com aqueles de quem eu gosto. talvez o mais importante sejam mesmo as folhas em branco e as canetas imóveis.

segunda-feira, junho 20, 2005

de estratégias da expropriação dos problemas

recuso-me a acreditar em soluções fáceis. em estalares de dedos, em escapes alienantes, em santos milagreiros. a beleza polida e forjada da fraqueza de carácter não se equipara nunca à coerência isométrica do pensamento lateral, ao poder da comunicação, à abordagem das perspectivas, à pega de caras.

há nas narrativas de tudo quanto possa ser adjectivado de milagroso um cheiro bafiento a auto-comiseração e credulidade miserável, multidões em delírio histérico. não que não exista benefício na crença em alguma metafísica, mas só se esta servir de impulso, de motor de arranque, de inspiração a uma qualquer resolução concreta. o verdadeiro milagre é a coragem desinteressada, é a paixão. é o olhar para dentro antes de olhar para fora, mapear as inconstâncias e atacá-las estrategicamente, como pragas de parasitas que se destroem com minúcia e determinação. palavras-chave. realizações que pedem muito mais do que simples ambição abstracta, feita de expectativas e sombras de desejos - pedem qualquer coisa mais viva, mais forte. qualquer coisa que não se presta a superficialidades nem a conformismos. disse sun tzu na sua "arte da guerra" que, para termos a garantia de que podemos vencer à vontade cem batalhas, temos de nos conhecer a nós próprios tão bem como ao nosso inimigo. conhecimento - e o discernimento para ver além das evidências.

sexta-feira, junho 17, 2005

esboço (de qualquer coisa muito, muito maior)

quero poder mostrar-te o mundo num carrossel, o amor num bago de uva ou num raio de sol na janela. percebes-me quando falo contigo, percebes os meus abraços, os meus sorrisos, a minha voz zangada, sentes a minha falta... sabes que és parte de mim.

quarta-feira, junho 15, 2005

lost in translation


é na infinitude do abraço que está a chave do que não se quer abrir por si. porque se é mais difícil a intimidade do que a aproximação, porque se é no olhar que se perde que está a resposta à pergunta que não se faz, porque se é no instante do toque que se apercebe a invisibilidade do momento perdido então a tradução está no indízivel. e no irrepetível.

o apelo (post calcutá)*


(sebastião salgado, "gourma-rharous", mali, 1985)

é o sonho de criança, forte e recorrente, que ganha vida de cada vez que eles aparecem, no colorido de um telejornal ou no canto impessoal da estação de metro, de mãos estendidas. os infinitos "eles" que constroem a nossa civilização (des)equilibrada em torres frágeis de cartas imensas em que os trunfos não são de maneira nenhuma suficientes para se fazer um jogo minimamente decente. são tantos, estão em todo o lado, devidamente desenquadrados da cultura do plafond de crédito, das férias anuais seja onde for e das palmadinhas nas costas - a cultura dos olhos bem fechados. a subsistência, meus amigos, torna-se uma questão de pertinência material precisamente porque há desigualdade. em lugares onde a vida humana tem um valor irrisório, onde estamos mais próximos da nossa origem animal, onde qualquer pre-concepção ocidental é desmanchada num instante. não falo por experiência. tenho pena. imagino-me cara a cara com a antítese de tudo o que sempre conheci - e a tentar descobrir as semelhanças, já que as diferenças estão à vista de todos. diz hobbes que os actos verdadeiramente altruístas nunca deixam de ser egoístas, na impossibilidade de negar a natureza egocêntrica do homem. tem razão. não me tira a vontade de poder fazer qualquer coisa, o derradeiro sacrifício, a possibilidade de ser uma abstracção de mim mesma para benefício de perfeitos desconhecidos. pior. desconhecidos com carências. e ver com os meus olhos, para poder acreditar com mais força, que o que mais falta faz ao homem é o espírito. ver nos olhos de um doente, de um refugiado, de um simples desfavorecido, os meus. e perceber que não há em mim nada de extraordinário - como todas as outras, uma pessoa. [se é que ainda alguém sabe o que isso é]

*aventurando-me corajosamente no campo traiçoeiro da "humanidade" - sem pretensões de sacristã ou de filantropa, pretendendo apenas enfatizar um ponto de vista que é universalmente meu e me manter bem ligada à realidade que é a de um mundo que se estende muito para além de bairros e avenidas. gostava de ter força, isso gostava. contento-me com a humildade de quem continua a querer aprender o que é ser humano.

terça-feira, junho 14, 2005

in the sequence of unfortunate events

cada vez mais me convenço da pouca importância do material. não é garantia de nada a não ser estabilidade financeira. constroem-se as aparências, consciente ou inconscientemente - e depois assiste-se confortavelmente ao desmoronar do castelo, até que todos os panos caiam e a verdade, seja ela qual for, possa finalmente ver a luz baça da escuridão.

ensaio

sim, eu sou narcisista
e também egoísta
gosto demasiado de mim para tentar sequer fazer crer o contrário

mas em mim há mil caras, mil cores
serigrafias de muitos amores e para
cada meretriz uma madre teresa
queria ser uma estudante americana
uma matrona siciliana ou uma actriz
de cinema viajando sem parar
dona do mundo bela e sem porquê
no olhar de quem vê esse poder e
esse transmutar de aquiescências
médica do mundo ou bailarina e nos
teus olhos nada mais que uma menina
cientista ou feiticeira é tudo igual
talvez até soldado israelita de pele
brilhante e voz aflita cantora lírica e
traficante de droga porque não
e com as minhas mãos poder tudo e
levar no espírito um infinito entrudo
para explodir com as nações unidas

sim, eu também me canso
e esqueço até
porque vale mais um pássaro na mão do que dois em vôo kamikaze

terça-feira, junho 07, 2005

défices

achava que as pessoas que buscavam atenção constante tinham inseguranças irresolúveis, talvez perturbações em passados mais ou menos distantes que as tivessem deixado de alguma maneira deficitárias. deixou de achar piada quando descobriu que na maioria das vezes eram só reflexos de uma tremenda insipidez.

terça-feira, maio 31, 2005

devorada


devoradinha, cortada aos bocadinhos pequeninos, estraçalhada e esfaqueada e fatiada fina. qualquer coisa que o seja - com força. poder e decisão e vontade e confiança e tudo o mais. a minha intensidade pede força - a minha pequenez também.

domingo, maio 29, 2005

em papel e caneta


são imensidões de azul-prateado que se estendem à minha frente. insurgem-se no meu vazio garrido e levam-me ao colo, de olhos bem fechados, para recordações próximas de outras cores - outros calores. encho-me de uma satisfação calma e imensa, de sorrisos desbragados e cinzas que se desorientam na inquietude dos movimentos e das sensações. são as tardes de primavera [quentes, em que o tempo - sempre tão pouco - parece querer congelar] que se opõem a este vento solitário e descontrolado que quer tomar conta de mim. eu congelo, com o tempo, para me derreter logo a seguir, em imagens que me torturam por não as conseguir guardar. não as guardo mas sinto-as: essa sensualidade que não é pictórica, não se ensaia nem vem em livro nenhum. é o que sinto contigo, sou eu, és tu. somos os dois quando abro os olhos. nas minhas mãos, o azul-prata do mar e do sonho.

sexta-feira, maio 20, 2005

cogitando

correndo, discorrendo, caindo na armadilha da filosofia barata, do pensamento fácil, da palavra falsamente profunda. escrevendo e reescrevendo, vezes sem conta, nas tais linhas que se prolongam como grandes estradas largas e infinitas em que os mecanismos da razão e da emoção se dissolvem num contraste. essa res cogitans que somos todos, a nossa cruz, abraçamo-la apesar do seu peso desmesurado e constante, e seguimos em frente como atlas que não têm outra escolha, outro remédio.

é o pensar que às vezes me trai. puxa-me e repuxa-me para mim, distrai-me e afasta-me do que tantas vezes devia ser. sou esmagada pela ponderação, pelo laissez-faire, pela hipótese de futuros que não o sejam nunca e que não consigam fazer mais do que torturar-me na hipérbole dos meus sentimentos. sei disso. sei que sou uma só, cabeça e coração lado a lado, aparafusados um ao outro numa eterna relação de intensa dualidade: os dois lados da moeda, mas na mesma face - sempre.

confundiu-me a explicação científica. perturbou-me e atingiu-me bem no âmago, relativizou-me e tornou-me, talvez até um pouco absurdamente, em apenas mais uma (porque, realmente, é o que sou em última instância). não me falta a humildade para reconhecer a minha pequeneza num plano cósmico, não se trata disso. todos os dias me asseguro da fragilidade de todo o equilíbrio. trata-se de querer acreditar - nessa dimensão espacial do pensar, nessa metafísica onde o incorpóreo toma forma e se destaca e todos nós somos mais do que apenas um.

quinta-feira, maio 19, 2005

[...]

presa
presa, amarrada, agrilhoada, capturada, cativa
de um único sentir - de uma única dança: a que danço contigo,
que me abraça e me leva ao colo para o meu pedestal.

perdida num sopro e achada
num gesto simples, num olhar cheio, num sorriso fugaz
e inspirador [revelador].

(em bocados de escuridão despedaçada e reconstruída, de ânsias devoluta, explosiva e inteira no exercício pleno do seu hedonismo e da sua paixão.)

terça-feira, maio 17, 2005

vejo


através dos sonhos e das paredes, das ambições descontroladas e das vontades exigentes e que me desgastam em ciclos de quente e frio desesperante. através do que é, do que agarro e toco e transformo, em manipulações efémeras e que só o são porque nem sempre me apetece deixar-me ir; gosto de ser controlada, e muito, gosto de me sentir peão ou cavalo sabendo de antemão que posso ser rainha sempre que me apetece; através de volteios e de sopros de meias-verdades e mentiras escondidas na opacidade da inflamável distância que perturba e corrói, na inalteração das constantes construindo a sua torre de camuflada indiferença. através das torres e dos castelos, da luta, dos leques que cobrem os olhares e esfriam as palavras, dificultando o que seriam de outro modo inatas traduções, tão agradáveis na sua simplicidade e delicadeza.

cega-me tanto quanto quiseres, eu vejo tudo.

life in red-tape heaven

[bom dia, estou caducada, quero voltar a ser eu] olhe não se esqueça de tirar a senha para ir para a fila tem que comprar o impresso no guichet pois, concerteza que tem de pagar próximo ai então se não tem vai ter que ir buscar o documento olhe a culpa não é minha não fui eu que inventei o sistema [transporte, poluição, gente, cinzento, fumo, gente] desça para o piso -1 talvez aí encontre o que procura [gente, cinzento, ar que pesa, gente, vazio] pois isso é aqui mesmo então não sabe mas como é que não sabe claro que tem que saber pois assim não a posso ajudar aliás vai ter que ir a sítio tal para conseguir o que quer posso-lhe arranjar aqui mas espera o dobro do tempo e vai-lhe custar o dobro do dinheiro [adeus, bom dia e vá-se foder mais os seus assentos] é aqui sim pois mas não está aqui de facto é esquisito veja lá se se consegue lembrar talvez lá em baixo eles lhe saibam dizer onde é que realmente está porque assim sendo...

[continuo caducada - azar]

sábado, maio 14, 2005

aparte

[deixar que o despir me dispa, de toda a ansiedade, de toda a calma insuportável que me trava e me encandeia com a sua insensatez. querer que o sentir me leve, e me deixe tocar-te, num mo(vi)mento quase insuspeito, imperceptível, conduzir-te com a estática, o magnetismo que me domina e me perde em eternidades tão fugazes e tão permanentes...querer que me enchas e me preenchas, não me deixes espaço para nada mais, segurar-te com a respiração de quem sente e deixar que me deslizes em fios de prazer imensos, tão leves e determinados na sua certeza e na sua satisfação.]